SOBRE CINEMA, SOBRE MÚSICA, SOBRE LIVROS, SOBRE POESIA E SOBRE BD. SOBRE POOL, BILHAR E SNOOKER. SOBRE SABORES E SOBRE CHEIROS. SOBRE A VIDA. SOBRE MIM E SOBRE OS OUTROS. SOBRE O QUE EU GOSTO E O QUE DETESTO. SOBRE O ASSIM-ASSIM. SOBRE O QUE ME LEMBRO. SOBRE O QUE ME APETECE. SOBRE TUDO E SOBRE COISA NENHUMA, NUMA VIVÊNCIA MECÂNICA DENTRO DE UM MUNDO AO CONTRÁRIO.
Mostrando postagens com marcador Textos Mecânicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos Mecânicos. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Textos Mecânicos - A Gestão disto assim é fácil
Por que é que eu penso que os sucessivos governos de Portugal dos últimos 85 anos têm sido compostos praticamente só por imbecis? Porque é fácil gerir a casa dos outros. Eu, por exemplo, que não sou licenciado em Gestão, consigo fazer qualquer núcleo familiar português chegar ao fim do mês com dinheiro... nem que para isso seja necessário impedir as pessoas que dele fazem parte de comer, tomar banho ou comprar medicamentos (se morrer alguém, melhor, com mais dinheiro ficam no mês seguinte). Tal como fazem os tipos do Governo (cortar em todas as despesas) ou alguns gestores contratados por multinacionais (cuja primeira medida é despedir gente). Para fazer isso não é preciso ser um génio. O que seria de génio (e a universidade deveria ter servido para aprender isso) era conseguir rentabilizar o país e as empresas sem cortes nos ordenados, nos subsídios e nas regalias. E sem despedimentos! Agora, cortando e despedindo a eito, quando o emprego e o chorudo ordenado de quem o faz estão garantidos, é fácil. São Eles a dizer: "Nós havemos de ficar bem, nem que vocês morram todos de fome!" Ora, assim também eu dou riqueza a este país de gente tão estúpida quanto eu próprio porque ainda aqui vivemos todos!
Marcadores:
País Mecânico,
Protestos Mecânicos,
Textos Mecânicos
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Textos Mecânicos - Incómodo Silêncio
Falo-te do tempo, porque não tenho coragem de te falar do que quero… do que sinto. Hoje está sol. Parece que é um dia de Verão. Ontem esteve frio, sobretudo à noite. Ainda é Inverno. É tempo dele! Mas hoje, hoje está um dia magnífico. A tua resposta ao assunto idiota do tempo é enigmaticamente inexistente. Mudo de conversa. Parece-me que não queres falar disto. Outra coisa. Deixa cá ver… Aquela criancinha tem umas meias amarelas. Sei que gostas de meias amarelas e saias verde-alface, como a dela. Tem um sorriso alegre e inocente escancarado no rosto, como o que tu costumas ter. Mas não tens. Não agora. Acho que tens, isso sim, um ar inexpressivo. Não sei bem. Ainda não consegui perceber que expressão (ou falta dela) é a tua e o que queres dizer com ela. Mas não desarmo. Portugal está em crise! Aliás, o mundo todo está em crise. Em crise económica e de valores morais. Este governo é uma merda! Ou melhor, todos os governos do mundo inteiro são uma grandessíssima merda! Nada. Nem a isto reages. Desato a insultar toda a gente. Todos os povos da Terra, as pessoas que passam na rua, à espera de uma reacção tua, que nunca acontece. Mudo de estratégia. Já vi que não respondes ao maldizer. Gosto de passarinhos. E de gatos. E de cães. E de animaizinhos, de um modo geral. Gosto de olhar para eles e de lhes fazer festas, quando eles deixam. Não gosto de moscas, nem de melgas, nem de mosquitos. São animais parvos. Nem são animais. São insectos. São insectos parvos. Mas gosto de aranhas, embora tenha medo delas. Tal como dos escorpiões. Mas cá não há escorpiões, portanto não tenho o enorme problema de me assustar a cada esquina. Nada dizes… Pronto. Ou não gostas de bichos, ou não gostas de falar sobre eles. E livros? Sabias que continuo a chorar com “O Principezinho”? E adoro banda-desenhada. Banda-desenhada e filmes. São tudo coisas que me fazem sentir emoções… Que estupidez! Sentir emoções é uma redundância, não é? Mas que merda! Por que é que não dizes nada? Ou, simplesmente, sorris? Um sorriso teu bastaria, como resposta. O teu silêncio só me condiciona ainda mais as palavras e os pensamentos. Esta questão exige uma manobra radical. Um momento de choque, que abane a consistência da tua inacção. Eu não queria dizer isto… mas… mas… ahn!... acho que gosto de ti. Acho que gosto mesmo muito de ti. Calo-me por um bocado. A ISTO vais ter que reagir! Eheheh! Já sinto uma tremedeira na espinha que preconiza uma vitória insofismável. Pois é! Não vais conseguir conter-te sem reagires a isto. Mas conténs-te. E eu desespero. Desespero por um gesto que não fazes, por uma palavra que não dizes, por um qualquer sinal, que nunca emites. Imagino que te ouço murmurar que me amas. Da tua boca apenas sai o grito insuportável do silêncio. À procura de qualquer indício de resposta, olho-te directamente nos olhos. Olhos, que apenas imagino estarem à minha frente. Não estão. Não estás. E és tão bonita, sentada nessa cadeira vazia deste café secular...!
Edgarbury K. Zeytonov (a.k.a. Filipe Lopes)
Café “A Brasileira” – Chiado
13/03/2006
Edgarbury K. Zeytonov (a.k.a. Filipe Lopes)
Café “A Brasileira” – Chiado
13/03/2006
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Textos Mecânicos - Eu e o Cinema
Este texto, já o escrevi há uns anos e foi publicado em vários locais. Ainda está no blog antestreia, por exemplo. Como é meu, resolvi pô-lo aqui também!
"Não sei a quem é que tu sais!", costumava a minha mãe dizer-me, com um sorriso de preocupação a sair-lhe dos lábios, quando eu tinha cerca de dezasseis anos, referindo-se à minha compulsiva vontade de ver filmes. De todo o tipo, mas acima de tudo, segundo a opinião dela - sublinho que era segundo a opinião dela e acho ser daí que provinha o tal esgar de preocupação -, de filmes de terror. Por um lado, penso que ela partilhava um pouco da minha alegria ao ver-me tão divertidamente interessado nessas coisas do cinema, por outro, temia que eu viesse a degenerar e me tornasse num daqueles psicopatas com cutelos e machados que pululavam nas fitas do género. Ou que me transformasse num vampiro à laia do Drácula ou do Nosferatu, sei lá! Bom, mas cedo compreendeu que podia ficar descansada quanto a essa questão, já que eu gostava dos filmes de terror tal como gostava dos outros, de todos os outros géneros, do 'western' ao drama, da comédia ao filme negro, do 'thriller' à animação ou à ficção científica. Mais tarde veio a comprovar que eu não me transformei no horripilante assassino da moto-serra. Acho que ficou contente!Apaixonei-me pelo cinema quando ainda era criança. Na aldeia da minha avó existia uma associação recreativa, onde por vezes um projeccionista itinerante assentava arraiais com a sua velhinha máquina de 16mm. Os primeiros filmes que vi projectados foram, por essa altura, algumas curtas-metragens nas quais aparecia a inconfundível e mítica imagem do Charlot. Aquela figura pequenina com uma divertida forma de andar, que usava bigodinho, bengala e chapéu de coco, ficou-me para sempre na memória. Hoje, quando (re) vejo alguns filmes do Charlie Chaplin, a primeira coisa que me vem à memória é aquela sensação que tive quando era miúdo ao ver "O Garoto de Charlot" (1920) - a de uma pureza absoluta, ou a de uma ingenuidade imaculada, própria de quem está a presenciar e sentir algo pela primeira vez. Chaplin foi um grande realizador. Um dos maiores de todos os tempos. A prová-lo estão títulos como "A Quimera do Ouro" (1925), "Tempos Modernos" (1936), "O Ditador" (1940), ou "Luzes da Ribalta" (1952), apenas para dar alguns exemplos.Acho que cresci fascinado pelo cinema da mesma forma que a criança de "Cinema Paraíso" (1988), de Giuseppe Tornatore. Para mim, aquele projeccionista que ia à aldeia da minha avó era um mago que trazia novos mundos e sonhos na bagagem para me oferecer. Graças a ele, fui o Zorro, o Robin dos Bosques, o Hércules e o Tarzan vezes sem conta, bem como o 'cowboy' mais rápido e com mais pontaria do Velho Oeste Americano. Ah! O Velho Oeste Americano! Teria, talvez, os meus oito anos, quando vi o "Shane" (1953), de George Stevens, pela primeira vez. E aí fui o rapazinho que segue de olhos lacrimejantes a partida do antigo pistoleiro transformado em herói solitário rumo ao horizonte. Um dos géneros que eu mais adorava, na época, era o 'western' e este filme foi o que abriu as portas para todos os outros que armazeno carinhosamente no meu baú de recordações, como "Rio Vermelho" (1948) ou "Rio Bravo" (1959), se falar em Howard Hawks, assim como "A Desaparecida" (1956), ou "O Homem Que Matou Liberty Valance" (1962), se me lembrar de John Ford. Aliás, estes dois realizadores pertencem, hoje, ao conjunto daqueles que eu mais admiro, mesmo noutros géneros cinematográficos. Lembrar-me-ei sempre de "As Vinhas da Ira" (1940) e de "O Vale Era Verde" (1941), como obras-primas absolutas que Ford nos deixou, tal como não me esquecerei jamais de "Paraíso Infernal" (1939), "Scarface - O Homem da Cicatriz" (1932) ou "Os Homens Preferem as Louras" como alguns dos legados mais importantes de Hawks à História do Cinema.Voltando ao 'western', não é de estranhar que John Wayne seja uma presença quase constante nos filmes que referi (à excepção de "Shane", Wayne entra em todos); ele é, de facto, para mim a figura do 'cowboy' por excelência. E era ele quem eu imitava, mesmo não fazendo a mínima ideia de quem era, nas minhas brincadeiras de criança. 'Johnny Guitar' (1954), de Nicholas Ray e, mais recentemente, Silverado (1985), de Lawrence Kasdan, e "Imperdoável" (1992) de Clint Eastwood, fazem, também eles parte, em conjunto com mais duas dúzias de títulos, da prateleira dourada da minha memória. Seria, no entanto, escandaloso (sem qualquer ponta de exagero), esquecer-me de mencionar o tantas vezes mal amado italiano 'western spaghetti', por intermédio da figura magistral de Sergio Leone e de alguns dos seus filmes, com particular ênfase para "Aconteceu no Oeste" (1968) e para a trilogia iniciada com "Por Um Punhado de Dólares" (1964), seguida por "Por Mais Alguns Dólares" (1965) e terminada com chave de ouro através do excepcional "O Bom, o Mau e o Vilão" (1966). O protagonista destes três últimos foi outro grandioso senhor do cinema, Clint Eastwood, também ele um actor com lugar destacado no 'western' e que encarnou como ninguém a figura do justiceiro que é um cavaleiro solitário.Mas foi aos treze anos, sensivelmente, que descobri ser o cinema a arte que eu mais adorava. O filme que provocou essa aproximação, no sentido de me levar a procurar outras coisas para ver e para ler, ou seja, para saciar a minha cada vez maior sede de conhecimento, foi "Laranja Mecânica" (1971), de Stanley Kubrick. Confesso que vi sem que ninguém, com poder para mo impedir, soubesse. Já sabia que todos diriam que não era um filme para a minha idade, tanto mais que o meu pai o tinha visto na altura da estreia em Portugal, lá para fins de 1974, princípios de 1975 e tinha ficado muitíssimo mal disposto com a sua violência, tanto a latente como a que era mostrada. Para um jovenzinho nos primórdios da adolescência, há melhor apresentação do que esta para ver o filme, sem sequer pensar em mais nada que não no simples prazer da transgressão? É óbvio que nada me tinha preparado para o que iria seguir-se e levei um violentíssimo murro no estômago por causa da minha teimosia, mas valeu a pena. A ideia subversiva que Kubrick transpõe para o grande ecrã, transformando um terrível e cruel criminoso em vítima da sociedade é, simplesmente, sublime. Claro que, com treze anos, embora já com uma relativamente longa jornada de filmes de terror vistos na televisão às sextas-feiras à noite sem que ninguém desse por isso, a percepção que eu tive do significado daquelas imagens não foi tão rebuscado. Isso só veio com o tempo, com o meu conhecimento das coisas do mundo, com os livros que li, com as pessoas com quem falei e com a numerosa quantidade de vezes que o revi. É incrível o que o Cinema pode fazer por nós!Stanley Kubrick passou a ser, a partir dessa altura, o meu realizador preferido. O seu cinema enchia-me (e enche-me) verdadeiramente a alma! São poucos os realizadores que podem dar-se ao luxo de dizer que foram geniais em quase todos os géneros pelos quais passaram. Kubrick foi (é!) um deles. De "2001, Odisseia no Espaço" (1968), na Ficção Científica, a "Barry Lyndon" (1975), no Filme de Época, passando por "Shining" (1980), no Terror, "Doutor Estranhoamor" (1964), na Comédia, ou "Nascido Para Matar" (1987), no Filme de Guerra, toda a sua carreira está assente em pilares muitíssimo sólidos e praticamente indestrutíveis. Um génio!Depois de "Laranja Mecânica", como há pouco referi, a minha paixão pelo cinema cimentou-se e a minha sede de conhecimento sobre a matéria cresceu como uma progressão geométrica. A partir daí, meus caros leitores, não sendo comedido no adjectivo a utilizar, foi o descalabro! Porque, se ver filmes custa dinheiro, comprar livros sobre a matéria tem um custo incomportável para uma bolsa de um miúdo que ainda não tem idade para trabalhar. Felizmente tive a ajuda de amigos, que me emprestavam muitas coisas e me ajudavam a seleccionar o que era importante. Foram largas centenas, os filmes que vi e os realizadores que tenho como referência. Citarei apenas alguns. Nunca se sabe… pode ser que esta "pequena" lista sirva para alguém que goste de cinema e queira andar à procura de algum que ainda não tenha visto…
"Não sei a quem é que tu sais!", costumava a minha mãe dizer-me, com um sorriso de preocupação a sair-lhe dos lábios, quando eu tinha cerca de dezasseis anos, referindo-se à minha compulsiva vontade de ver filmes. De todo o tipo, mas acima de tudo, segundo a opinião dela - sublinho que era segundo a opinião dela e acho ser daí que provinha o tal esgar de preocupação -, de filmes de terror. Por um lado, penso que ela partilhava um pouco da minha alegria ao ver-me tão divertidamente interessado nessas coisas do cinema, por outro, temia que eu viesse a degenerar e me tornasse num daqueles psicopatas com cutelos e machados que pululavam nas fitas do género. Ou que me transformasse num vampiro à laia do Drácula ou do Nosferatu, sei lá! Bom, mas cedo compreendeu que podia ficar descansada quanto a essa questão, já que eu gostava dos filmes de terror tal como gostava dos outros, de todos os outros géneros, do 'western' ao drama, da comédia ao filme negro, do 'thriller' à animação ou à ficção científica. Mais tarde veio a comprovar que eu não me transformei no horripilante assassino da moto-serra. Acho que ficou contente!Apaixonei-me pelo cinema quando ainda era criança. Na aldeia da minha avó existia uma associação recreativa, onde por vezes um projeccionista itinerante assentava arraiais com a sua velhinha máquina de 16mm. Os primeiros filmes que vi projectados foram, por essa altura, algumas curtas-metragens nas quais aparecia a inconfundível e mítica imagem do Charlot. Aquela figura pequenina com uma divertida forma de andar, que usava bigodinho, bengala e chapéu de coco, ficou-me para sempre na memória. Hoje, quando (re) vejo alguns filmes do Charlie Chaplin, a primeira coisa que me vem à memória é aquela sensação que tive quando era miúdo ao ver "O Garoto de Charlot" (1920) - a de uma pureza absoluta, ou a de uma ingenuidade imaculada, própria de quem está a presenciar e sentir algo pela primeira vez. Chaplin foi um grande realizador. Um dos maiores de todos os tempos. A prová-lo estão títulos como "A Quimera do Ouro" (1925), "Tempos Modernos" (1936), "O Ditador" (1940), ou "Luzes da Ribalta" (1952), apenas para dar alguns exemplos.Acho que cresci fascinado pelo cinema da mesma forma que a criança de "Cinema Paraíso" (1988), de Giuseppe Tornatore. Para mim, aquele projeccionista que ia à aldeia da minha avó era um mago que trazia novos mundos e sonhos na bagagem para me oferecer. Graças a ele, fui o Zorro, o Robin dos Bosques, o Hércules e o Tarzan vezes sem conta, bem como o 'cowboy' mais rápido e com mais pontaria do Velho Oeste Americano. Ah! O Velho Oeste Americano! Teria, talvez, os meus oito anos, quando vi o "Shane" (1953), de George Stevens, pela primeira vez. E aí fui o rapazinho que segue de olhos lacrimejantes a partida do antigo pistoleiro transformado em herói solitário rumo ao horizonte. Um dos géneros que eu mais adorava, na época, era o 'western' e este filme foi o que abriu as portas para todos os outros que armazeno carinhosamente no meu baú de recordações, como "Rio Vermelho" (1948) ou "Rio Bravo" (1959), se falar em Howard Hawks, assim como "A Desaparecida" (1956), ou "O Homem Que Matou Liberty Valance" (1962), se me lembrar de John Ford. Aliás, estes dois realizadores pertencem, hoje, ao conjunto daqueles que eu mais admiro, mesmo noutros géneros cinematográficos. Lembrar-me-ei sempre de "As Vinhas da Ira" (1940) e de "O Vale Era Verde" (1941), como obras-primas absolutas que Ford nos deixou, tal como não me esquecerei jamais de "Paraíso Infernal" (1939), "Scarface - O Homem da Cicatriz" (1932) ou "Os Homens Preferem as Louras" como alguns dos legados mais importantes de Hawks à História do Cinema.Voltando ao 'western', não é de estranhar que John Wayne seja uma presença quase constante nos filmes que referi (à excepção de "Shane", Wayne entra em todos); ele é, de facto, para mim a figura do 'cowboy' por excelência. E era ele quem eu imitava, mesmo não fazendo a mínima ideia de quem era, nas minhas brincadeiras de criança. 'Johnny Guitar' (1954), de Nicholas Ray e, mais recentemente, Silverado (1985), de Lawrence Kasdan, e "Imperdoável" (1992) de Clint Eastwood, fazem, também eles parte, em conjunto com mais duas dúzias de títulos, da prateleira dourada da minha memória. Seria, no entanto, escandaloso (sem qualquer ponta de exagero), esquecer-me de mencionar o tantas vezes mal amado italiano 'western spaghetti', por intermédio da figura magistral de Sergio Leone e de alguns dos seus filmes, com particular ênfase para "Aconteceu no Oeste" (1968) e para a trilogia iniciada com "Por Um Punhado de Dólares" (1964), seguida por "Por Mais Alguns Dólares" (1965) e terminada com chave de ouro através do excepcional "O Bom, o Mau e o Vilão" (1966). O protagonista destes três últimos foi outro grandioso senhor do cinema, Clint Eastwood, também ele um actor com lugar destacado no 'western' e que encarnou como ninguém a figura do justiceiro que é um cavaleiro solitário.Mas foi aos treze anos, sensivelmente, que descobri ser o cinema a arte que eu mais adorava. O filme que provocou essa aproximação, no sentido de me levar a procurar outras coisas para ver e para ler, ou seja, para saciar a minha cada vez maior sede de conhecimento, foi "Laranja Mecânica" (1971), de Stanley Kubrick. Confesso que vi sem que ninguém, com poder para mo impedir, soubesse. Já sabia que todos diriam que não era um filme para a minha idade, tanto mais que o meu pai o tinha visto na altura da estreia em Portugal, lá para fins de 1974, princípios de 1975 e tinha ficado muitíssimo mal disposto com a sua violência, tanto a latente como a que era mostrada. Para um jovenzinho nos primórdios da adolescência, há melhor apresentação do que esta para ver o filme, sem sequer pensar em mais nada que não no simples prazer da transgressão? É óbvio que nada me tinha preparado para o que iria seguir-se e levei um violentíssimo murro no estômago por causa da minha teimosia, mas valeu a pena. A ideia subversiva que Kubrick transpõe para o grande ecrã, transformando um terrível e cruel criminoso em vítima da sociedade é, simplesmente, sublime. Claro que, com treze anos, embora já com uma relativamente longa jornada de filmes de terror vistos na televisão às sextas-feiras à noite sem que ninguém desse por isso, a percepção que eu tive do significado daquelas imagens não foi tão rebuscado. Isso só veio com o tempo, com o meu conhecimento das coisas do mundo, com os livros que li, com as pessoas com quem falei e com a numerosa quantidade de vezes que o revi. É incrível o que o Cinema pode fazer por nós!Stanley Kubrick passou a ser, a partir dessa altura, o meu realizador preferido. O seu cinema enchia-me (e enche-me) verdadeiramente a alma! São poucos os realizadores que podem dar-se ao luxo de dizer que foram geniais em quase todos os géneros pelos quais passaram. Kubrick foi (é!) um deles. De "2001, Odisseia no Espaço" (1968), na Ficção Científica, a "Barry Lyndon" (1975), no Filme de Época, passando por "Shining" (1980), no Terror, "Doutor Estranhoamor" (1964), na Comédia, ou "Nascido Para Matar" (1987), no Filme de Guerra, toda a sua carreira está assente em pilares muitíssimo sólidos e praticamente indestrutíveis. Um génio!Depois de "Laranja Mecânica", como há pouco referi, a minha paixão pelo cinema cimentou-se e a minha sede de conhecimento sobre a matéria cresceu como uma progressão geométrica. A partir daí, meus caros leitores, não sendo comedido no adjectivo a utilizar, foi o descalabro! Porque, se ver filmes custa dinheiro, comprar livros sobre a matéria tem um custo incomportável para uma bolsa de um miúdo que ainda não tem idade para trabalhar. Felizmente tive a ajuda de amigos, que me emprestavam muitas coisas e me ajudavam a seleccionar o que era importante. Foram largas centenas, os filmes que vi e os realizadores que tenho como referência. Citarei apenas alguns. Nunca se sabe… pode ser que esta "pequena" lista sirva para alguém que goste de cinema e queira andar à procura de algum que ainda não tenha visto…
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Textos Mecânicos - O Túnel e a Luz
O Túnel e a Luz
O túnel
é escuro.
Aterradoramente
escuro.
Consome-me
a cada passo que dou,
mas eu
continuo a avançar
masoquistamente,
incessantemente.
Nada se vê,
nada se ouve.
Sente-se somente
um frio cortante,
húmido
e seco.
As sensações
confundem-se.
Eu avanço
persistentemente
por entre
as trevas.
Avisto uma luz,
ténue,
de brilho amedrontado,
ao longe,
inacessível.
Aperto o passo...
corro pelo nada;
os meus braços
ensanguentados
pelas paredes rugosas,
não os sinto,
como se não os tivesse.
A luz
continua longe,
muito longe,
dando a triste impressão
de que quanto
mais avanço,
mais ela se afasta.
Tropeço,
caio;
a pele queimada
pela fricção
com o solo...
Levanto-me,
procuro a causa
da minha queda.
Um cheiro nauseabundo
paira no ar.
Apalpo qualquer coisa...
fria,
comprida,
flácida.
Um corpo!
Um cadáver humano
em estado
de letárgica
decomposição.
O cheiro...
o cheiro...!
Invade-me os sentidos,
estonteia-me!
A luz,
ao fundo.
A luz,
as trevas,
o cheiro,
o corpo!
Corro,
fujo.
Persigo a luz,
cada vez mais ténue,
cada vez mais distante.
Corro,
corro...
corro com uma ânsia
cega
de ter esperança
em alguma coisa.
O cheiro volta;
eu tropeço novamente
e novamente caio.
O cheiro...
um odor quase insuportável
a putrefacção.
Um corpo...
outro corpo...!
Não lhe toco.
Sinto-o somente,
perto,
demasiadamente perto.
Outra vez
me levanto
e começo correr,
para outra vez
tropeçar
e cair
e queimar a pele
na fricção com o solo.
E outra vez,
e mais outra,
e outras mais.
E de todas
as vezes
me levanto
e continuo a caminhada
em direcção
à luz.
À luz...
à luz...!
O cheiro...
o sangue do meu corpo...
as trevas...
os corpos...
dezenas,
centenas de corpos!
O cheiro...
a luz...
Náuseas...
sinto náuseas!
O começo da loucura
racional,
do desespero,
da falta de esperança.
Não corro mais...
não consigo correr mais...!
Ajoelho-me
e choro.
A luz,
ao longe.
A luz...!
Ergo-me,
e caminho
e cambaleio
e caio mais uma vez.
Não tenho forças;
as pernas não reagem.
O cheiro...
fétido...
o cheiro...
o cheiro...!
Vomito
num sórdido
grito
de desespero interior.
Arrasto-me
sobre a massa
peçonhenta
que se amontoa
no chão,
sempre, sempre
em direcção
à luz.
Ouço uma respiração ofegante,
mais ofegante
que a minha.
Alguém vivo!
deitado,
presumo;
que também
perseguiu a luz,
penso.
Digo
qualquer coisa,
num murmúrio
inconsequente.
Um último suspiro...
fundo...
prolongado...!
O último...!
Mais um que não conseguiu;
mais um corpo
que se irá decompor
para amplificar
o cheio.
O cheiro...!
Vomito novamente.
A luz
está perto;
nunca ninguém
esteve tão perto.
Quase
lhe consigo tocar.
Um último esforço...
centenas de homens...
centenas de corpos
e nunca ninguém
esteve tão perto...
e eu quase toco
na luz...
na luz...!
Qual luz?!
Apagou-se...
não existe!...
Terá, alguma vez,
existido?
A diluição...
da esperança,
do sonho,
de uma vida inteira,
por nada...
nada...
nada...!
Exausto,
deixo-me cair.
Desisto...
o chão é frio,
gélido...
carinhoso
e reconfortante.
Eu espero...
espero...
espero...
sem pressa,
sem desespero,
serenamente.
Afinal
tenho todo o tempo
da eternidade!
Ou toda a eternidade
de um tempo...
Edgarbury K. Zeytonov (a.k.a. Filipe Lopes)
23/04/1996
Tasco do Ernesto
O túnel
é escuro.
Aterradoramente
escuro.
Consome-me
a cada passo que dou,
mas eu
continuo a avançar
masoquistamente,
incessantemente.
Nada se vê,
nada se ouve.
Sente-se somente
um frio cortante,
húmido
e seco.
As sensações
confundem-se.
Eu avanço
persistentemente
por entre
as trevas.
Avisto uma luz,
ténue,
de brilho amedrontado,
ao longe,
inacessível.
Aperto o passo...
corro pelo nada;
os meus braços
ensanguentados
pelas paredes rugosas,
não os sinto,
como se não os tivesse.
A luz
continua longe,
muito longe,
dando a triste impressão
de que quanto
mais avanço,
mais ela se afasta.
Tropeço,
caio;
a pele queimada
pela fricção
com o solo...
Levanto-me,
procuro a causa
da minha queda.
Um cheiro nauseabundo
paira no ar.
Apalpo qualquer coisa...
fria,
comprida,
flácida.
Um corpo!
Um cadáver humano
em estado
de letárgica
decomposição.
O cheiro...
o cheiro...!
Invade-me os sentidos,
estonteia-me!
A luz,
ao fundo.
A luz,
as trevas,
o cheiro,
o corpo!
Corro,
fujo.
Persigo a luz,
cada vez mais ténue,
cada vez mais distante.
Corro,
corro...
corro com uma ânsia
cega
de ter esperança
em alguma coisa.
O cheiro volta;
eu tropeço novamente
e novamente caio.
O cheiro...
um odor quase insuportável
a putrefacção.
Um corpo...
outro corpo...!
Não lhe toco.
Sinto-o somente,
perto,
demasiadamente perto.
Outra vez
me levanto
e começo correr,
para outra vez
tropeçar
e cair
e queimar a pele
na fricção com o solo.
E outra vez,
e mais outra,
e outras mais.
E de todas
as vezes
me levanto
e continuo a caminhada
em direcção
à luz.
À luz...
à luz...!
O cheiro...
o sangue do meu corpo...
as trevas...
os corpos...
dezenas,
centenas de corpos!
O cheiro...
a luz...
Náuseas...
sinto náuseas!
O começo da loucura
racional,
do desespero,
da falta de esperança.
Não corro mais...
não consigo correr mais...!
Ajoelho-me
e choro.
A luz,
ao longe.
A luz...!
Ergo-me,
e caminho
e cambaleio
e caio mais uma vez.
Não tenho forças;
as pernas não reagem.
O cheiro...
fétido...
o cheiro...
o cheiro...!
Vomito
num sórdido
grito
de desespero interior.
Arrasto-me
sobre a massa
peçonhenta
que se amontoa
no chão,
sempre, sempre
em direcção
à luz.
Ouço uma respiração ofegante,
mais ofegante
que a minha.
Alguém vivo!
deitado,
presumo;
que também
perseguiu a luz,
penso.
Digo
qualquer coisa,
num murmúrio
inconsequente.
Um último suspiro...
fundo...
prolongado...!
O último...!
Mais um que não conseguiu;
mais um corpo
que se irá decompor
para amplificar
o cheio.
O cheiro...!
Vomito novamente.
A luz
está perto;
nunca ninguém
esteve tão perto.
Quase
lhe consigo tocar.
Um último esforço...
centenas de homens...
centenas de corpos
e nunca ninguém
esteve tão perto...
e eu quase toco
na luz...
na luz...!
Qual luz?!
Apagou-se...
não existe!...
Terá, alguma vez,
existido?
A diluição...
da esperança,
do sonho,
de uma vida inteira,
por nada...
nada...
nada...!
Exausto,
deixo-me cair.
Desisto...
o chão é frio,
gélido...
carinhoso
e reconfortante.
Eu espero...
espero...
espero...
sem pressa,
sem desespero,
serenamente.
Afinal
tenho todo o tempo
da eternidade!
Ou toda a eternidade
de um tempo...
Edgarbury K. Zeytonov (a.k.a. Filipe Lopes)
23/04/1996
Tasco do Ernesto
Assinar:
Postagens (Atom)