terça-feira, 8 de julho de 2008

3 de Julho: Um dia feliz para o Cinema Mundial


Dia 3 de Julho de 2008 entrará para a galeria dos dias felizes na História do Cinema. O dia em que foram vistas pela primeira vez algumas das cenas perdidas há muitos anos (crê-se que foram encontradas todas) da obra-prima de Fritz Lang "Metropolis" (1927). Milhões de pessoas no mundo inteiro viram o filme, mas praticamente ninguém viu a obra original da forma como ela foi feita por Lang. A montagem original feita pelo realizador alemão teria cerca de três horas e meia e a versão mais difundida (e aquela que mais gente viu) é a musicada por Giorgio Moroder em 1984 e que tem menos de hora e meia, o que são, portanto, cerca de duas horas de diferença.
A montagem original foi, ao que parece, descoberta numa cópia em 16 mm (o que é pena, mas é melhor do que nada) no arquivo da Cinemateca de Buenos Aires, na Argentina, e terá feito parte, até há pouco tempo, de uma colecção particular. Certo é que as imagens do lendário filme de Lang que quase ninguém viu estarão, mais ano menos ano, disponíves para o público que estiver interessado em vê-las... Certamente será um filme bastante diferente das (diversas) versões já existentes!
Para quem quiser, aqui estão três sítios onde podem ler mais, em inglês:
http://news.bbc.co.uk/1/hi/entertainment/7489278.stm
http://news.yahoo.com/s/ap/20080704/ap_on_re_la_am_ca/argentina_metropolis_footage
http://film.guardian.co.uk/news/story/0,,2288990,00.html
E, para quem percebe, um em alemão:
http://www.zeit.de/online/2008/27/metropolis-vorab

A notícia foi um tema bastante difundido na XXXVII Mostra internazionale del Cinema Libero IL CINEMA RITROVATO, em Bolonha, cuja responsabilidade é da Cineteca di Bologna (http://www.cinetecadibologna.it/en/ritrovato.htm)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A Voz mantém-se viva, o corpo d'A Voz morreu há dez anos

Frank Sinatra, faleceu a 14 de Maio de 1998...
Parece um blog para epitáfios, este, mas não é!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Fotos mecânicas - Open Internacional do Snooker Super Club na Venteira/Amadora


Ena, ena! Mais uma foto minha! Estou a ficar com uma relação menos terrível com as fotografias...

terça-feira, 25 de março de 2008

Um pesar nada mecânico - Zeca morreu há 21 anos, um mês e dois dias

José Afonso morreu, fez no passado dia 23 de Fevereiro, 21 anos... Parece que foi ontem... Só hoje é que consegui colocar aqui um post à sua memória. Que descanse em paz, pois para nós estará sempre vivo!! E porque as datas não devem ser lembradas apenas no dia em que acontecem



A MORTE SAÍU À RUA

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada hà covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação
José Afonso

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Mecanismos Externos - Aurora Boreal

Mais um...


Aurora boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão

Mecanismos Externos - Amostra sem valor

Mais um do António Gedeão, que partilhou comigo pedaços da minha vida. Este ilustra mais ou menos a forma como me tenho sentido ultimamente...


Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Mecanismos Externos - Poema da morte na estrada

Nada melhor para assinalar a minha primeira postagem neste blog, em 2008, do que com um poema muitíssimo alegre do António Gedeão


Poema da Morte na Estrada

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora, na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão